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"OS RIVAIS – A guerra de coleções"

Conto cômico numismático (Por Roberto da Silva Rodrigues)

Há muitos anos, em Santa Tereza, bairro do Rio, viveram dois colecionadores, fanáticos por moedas, que alimentaram sua rivalidade numismática numa guerra de vaidades que atraiu inúmeras confusões. Esta, a história dos garotos Johann e Benson.


Tudo começou numa manhã nublada, verão de 1972. Johann e Benson eram vizinhos. Suas mães, muito amigas, foram à Praia de Copacabana e levaram os pimpolhos. Enquanto elas reclamavam da falta de sol, os garotos se divertiam fazendo castelos de areia. Até o momento em que Johann achou uma moeda. Linda. Enterrada na areia. Estava escrito: 400 réis, Quarto Centenário da Colonização. Tinha um mapa do Tratado de Tordesilhas. E eles estavam estudando essa matéria no colégio!



Johann ficou radiante e mostrou a Benson. Este, invejoso, tomou-lhe a moeda e correu. Johann foi atrás. “Ô moleque! Devolve minha moeda!” Já estava quase o alcançando, quando Benson, fingindo choro, agarrou nas pernas da mãe e disse que Johann queria “tomar a moeda que achou”. A mãe de Johann o olhou com reprovação, mesmo diante da explicação do filho de que Benson é que tinha roubado os 400 réis. Mandou-o ficar quieto e voltar a brincar.



Revoltado, Johann voltou ao lugar onde achara a moeda. Revolvendo mais um pouco na areia, achou outra, menor, de 50 réis, de 1887, com o brasão imperial. “Dou um soco nele se tentar tirar de mim”. Aí mostrou a peça a Benson, que desdenhou: “A minha é maior, bobalhão!” Ao que Johann retrucou: “mas a minha é mais antiga, seu burro!”



E ficaram nessa ladainha na volta do passeio, no carro. As duas mães estavam à beira de um ataque de nervos, estapeando os moleques. Mal sabiam que a partir dali, os aborrecimentos só começavam.



Na escola, a rivalidade aumentava. Os dois eram os melhores alunos, disputavam as melhores notas. O avô de Johann alimentou a confusão, dando a coleção de moedas para o neto. Não tinha muitas. A maioria razoáveis, primeiros anos da República, mas algumas eram do Império. Bem escuras. 



Johann resolveu limpá-las. “Mãe, empresta o polidor?” Pegou um chumaço de algodão, embebeu o líquido e passou nas moedas. Seus olhos brilhavam ao ver a transformação: de sujas ficaram reluzentes. Eram de prata. Isso o marcaria para sempre, uma das maiores emoções que já sentira.



Não demorou para Benson saber. Johann levou-as ao colégio, mostrando aos amigos, no recreio. “Que alvoroço é esse perto do idiota?”, pensou Benson. Jogou fora o resto de cachorro-quente e foi ver. Pablo, que sabia da inimizade dos dois, jogou lenha na fogueira. “Duvido que o Benson tenha essas moedas aqui. São raras paca!”



Benson, cheio de marra, garantiu que iria conseguir melhores. Em casa, perguntou aos pais se alguém da família tinha moedas antigas. A mãe foi à loucura. “De novo esse negócio? Você não larga a mania?” O pai de Benson, porém, abriu a boca. “Acho que tenho um primo em Jacarepaguá, o Elias, que tem moedas velhas.”



Benson quis saber o endereço. Os pais não deram. Aí ele pegou a agenda, escondido, e ligou. “Tio Elias, é o Benson. Eu soube que o senhor tem moedas antigas. Eu coleciono e queria ver. Posso ir aí?” “Mas é claro. Anota o endereço...”



No dia seguinte, Benson, que nunca matara aula, pegou um trem e foi a Jacarepaguá. Tio Elias mostrou as moedas. E reparou no interesse do sobrinho. “Você gostou? Tenho repetidas. Essas grandes aqui. Duas patacas do Dom João. 1818 e 1819. Pode levar.”



Benson gostou, mas queria mais. Sem o tio ver, passou a mão em dez moedas de níquel, do Império. “Esse velho tem muitas. Não vai dar falta.” E voltou pra casa. Foi recebido a cinturadas, pois a mãe foi chamada a atenção, por telefone, que o filho não aparecera no colégio. Mas a surra valeu a pena. Doze moedas não era muito, mas ele esfregaria na cara do rival as patacas.



E assim fez. Exibiu as moedas pra todo mundo, dizendo que eram muito mais raras que as de Johann. Este o empurrou após ser xingado de “juntador” de moedas. Benson esbarrou no bebedouro e deixou uma das moedas cair. Ela criou uma mossa na borda, o que o deixou encolerizado. “Olha o que tu fez com a minha pataca de 960, seu peste!” E voou em cima de Johann. 



Rolaram pelo chão do pátio, e uma galera cercou os dois, pra assistir o acerto de contas. “Você vai me dar outra moeda igual àquela!”, rosnava Benson. “E você vai me devolver a moeda que roubou de mim na praia!”, gritava Johann. A briga durou até a chegada do diretor.



Cristóvão de Assis era o maior carrasco das instituições de ensino do bairro. Ele fitou os dois com ar severo. “Então temos dois numismatas na classe. É isso mesmo? Numismatas? Ou seriam psicopatas?” E quis tirar um sarro com os moleques. 



“Vocês são especialistas, não é? Qual a moeda mais valiosa do Brasil, Benson?” “A peça da coroação de Dom Pedro I, de 1822.”, “E as primeiras moedas cunhadas aqui?” “Foram florins, na ocupação holandesa”. O rosto do diretor enrubesceu. Ele voltou-se para Johann: “Em que ano foi instituído o cruzeiro?” “1942”. “Vintém e tostão eram apelidos de que moedas?” “20 réis e 100 réis, respectivamente”... O diretor ficou verde, roxo, azul...



Os outros alunos começaram a caçoar e dar risadas. Cristóvão pretendia humilhar os moleques, mas acabou zoado. Ficou em silêncio por uns instantes, até decretar: “uma semana de suspensão para cada um!” Virou as costas e foi embora, com um sorriso de satisfação.



Os pais deram uma surra nos garotos. As mães, antes amigas, não se falavam mais. Sabotagens eram constantes. Como na vez em que Benson afanou uns fascículos da coleção “O Pequeno Numismata” – que trazia moedas estrangeiras de brinde -, que Johann comprava nas bancas e deixara inadvertidamente no chão de casa, com a porta da frente aberta. Benson também colecionava. E teve o troco, ao deparar com alguns de seus fascículos encharcados de urina. Johann pulou a janela da casa de Benson e se vingou. Outros fascículos eram encontrados nas cestas de lixo de ambos, rasgados...



Um dos últimos atos dessa história foi uma palestra no auditório do colégio, quando um representante da Casa da Moeda foi convidado para dar uma aula sobre história monetária. Benson e Johann se revezavam em fazer perguntas ao orador, de forma constrangedora, para “se mostrarem”, numa disputa de quem fazia questionamentos mais inteligentes.



No encerramento, o representante distribuiu cartilhas e gibis sobre moedas, e resolveu sortear uma peça de prata, 20 cruzeiros, comemorativa do Sesquicentenário da Independência. Quem ganhou foi Pablo, o colega amigo da onça, que imediatamente teve uma ideia. 



Ele deu a entender que não queria ficar com a moeda, na frente dos dois. Aí começou uma disputa pra ver quem oferecia mais. “Te dou cinco cruzeiros por ela”, disse Johann. “Eu cubro a oferta, dou seis”... E assim foi, até Johann dar um lance de 15 cruzeiros e Benson desistir.
Ressentido, ele propôs uma exposição das duas coleções, em mesinhas dispostas na principal rua do bairro, pra ver quem recebia mais elogios dos vizinhos. Cada um já tinha, àquela altura, coleções consideráveis. Passaram-se 4 anos desde aquela manhã na praia.



O que não contavam é que um grupo de playboys, que passavam a bordo de um Maverik, afanou as coleções, por “divertimento”. Eles saltaram do carro, surrupiaram as mesas recheadas de moedas e cédulas e partiram em velocidade. “Pega, ladrão!!”, berraram dos dois, em uníssono. Uma patrulha que passava ouviu os gritos e partiu atrás dos malucos. 



A perseguição foi longa, durante horas os playboys rodaram a cidade, até que, numa curva fechada, ao lado de um precipício, na estrada para São Conrado, o carro voou e mergulhou no mar. Benson e Johann chegaram ao local, nos carros dos pais, algum tempo depois.



Olharam consternados lá pra baixo. Para o azul do mar. Impotentes. “Minhas moedas, minhas moedas...”, choramingavam... Até que viram dois garotinhos passarem, com umas chapinhas de refrigerantes. Elas vinham com personagens Disney impressos. Os garotinhos trocavam suas repetidas. Benson, virando-se pra Johann, disse: Hoje mesmo vou começar minha coleção de Bingola Disney. Duvido que você ache mais chapinhas que eu!” “Ah, é? Meus tios têm um botequim no Centro. Vou pedir pra eles guardarem as chapinhas pra mim!”, disparou Johann.



E assim foi. A vida seguiu e mais uma guerra de coleções estava declarada entre os dois pequenos rivais...