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“Hepáticas”

Muitos não percebem o valor das moedas. Não o monetário, pois hoje, tempos de moeda fiduciária, os itens metálicos ficaram para a representação dos valores menores, mero troco.
Fig. 1 – Família de moedas britânicas (fonte: Wikipédia)
Nem sempre foi assim. O papel-moeda é uma invenção da Idade Média e somente passou a ser o centro das transações no século XIX; antes, o comércio era feito com metal no formato de discos, as moedas. Uma regra que valeu por um bom tempo foi que as moedas de valor menor eram cunhadas em cobre; as de valor mediano, em prata; e as mais valiosas, em ouro. Padrão hoje que, mesmo não sendo mais usual, ainda mantém certa influência, por exemplo, na cunhagem britânica, na qual as moedas 1 penny e 2 pence são de metal similar ao cobre; as de 5, 10, 20 e 50 pence, prateadas; e a de uma libra, dourada (fig. 1).
O Brasil também seguiu esse padrão em boa parte de sua história financeira e numismática. A última moeda de prata para circulação comum é dos anos 30. Depois disso, com a progressiva desvalorização e a passagem para moeda fiduciária, optou-se pela cunhagem em materiais mais baratos, como bronze-alumínio, alumínio, cuproníquel e aço inoxidável.
Mesmo relegadas ao fundo dos bolsos, as moedas ainda podem contar muito a respeito de determinada cultura, suas influências e tradições.
Dois exemplos sobre os quais me debrucei durante uma manhã toda pode dar amostras interessantes do que podemos “arrancar” de informação de meros pedaços de metal timbrados.
São duas moedas belgas: uma de 5 francos, de 1968, e outra de 1 franco, de 1923. São moedas de valor baixo, a primeira de níquel e a segunda de cuproníquel. O que chama a atenção nas moedas belgas é o fato de que até a introdução do euro, elas eram bilíngues. A Bélgica tem uma área de língua holandesa, ao norte, e uma de língua francesa, ao sul, Flandres e Valônia, respectivamente. Mas, com algumas exceções, as moedas não traziam as duas línguas e sim havia sempre duas moedas diferentes para cada valor. Exatamente iguais, exceto onde se lê o nome do país (Belgique ou België) e, no caso da moeda anterior, do período entreguerras, o Goed voor ou Bon pour (“Bom para”).
Fig. 2 – Um franco belga, 1925
Na moeda de 1 franco (fig. 2), em seu reverso, além do Goed voor, vê-se um bastão. A primeira análise pode levar um observador incauto — como fiz inicialmente — a deduzir que se trata do bordão de Esculápio, símbolo do deus romano da Medicina e da Cura (Asclépio, na versão grega). Porém, o bordão de Esculápio não é alado. Em algumas farmácias antigas era comum vê-lo como emblema; porém, o que temos nessa moeda é um caduceu, o bordão de Mercúrio (Hermes), patrono do Comércio. Outro uso moderno desse símbolo é como representação dos sindicatos de comerciários. Logo, sua presença em uma moeda faz menção, obviamente, à função monetária, ao comércio; a função primeva da moeda foi de facilitar o comércio, para substituir a simples troca de gêneros: a moeda como intermediária das relações comerciais. Realmente interessante.
No anverso, o nome do país, België, e uma figura feminina ajoelhada, aparentemente calçando uma bota. Igualmente não se trata de uma simples alegoria feminina para ornar. Embora não tenha achado fontes textuais, faço uma dedução que tem muita chance de estar correta: trata-se da personificação da Bélgica, uma figura feminina representando a pátria.
Fig. 3 – 50 pence (1968-1997)
A ideia de personificação de conceitos, regiões e países nos vem dos romanos. Suas moedas são pródigas em exemplos de personificação, seja de províncias (Britânia – fig. 4, Germânia, Hispânia, Judeia, das que consigo lembrar-me sem recorrer a livros), de conceitos (Justiça, Liberdade, Letícia — Alegria) ou mesmo do Estado romano (Roma, Genius Populi Romani). As personificações conceituais em numismática podem ser tanto de corpo inteiro quanto apenas o busto.
Fig. 4 – Sestércio romano do imperador Antonino Pio (138-160 d.C.) com a Britânia
Entre nós tal conceito também vicejava e ainda viceja. A representação da República presente em nossas cédulas, embora seja a adaptação feita pela Revolução Francesa, evoca essas personificações antigas. A moeda de 50pence inglesa (fig. 3), até a remodelação de 2008, apresentava a Britânia sentada, apoiando um escudo e uma lança e com um ramo de oliveira na mão esquerda.
No caso da nossa moeda de 1 franco, parece que a Bélgica calça uma bota, tem à cintura uma espada e, do outro lado, um escudo. Pode ser mesmo uma releitura da Britânia ou uma criação propriamente belga, inspirada em velhas personificações. A única informação possível é o nome do gravador, Armand Bonnetain. Não consegui informações adicionais e, infelizmente, na fig. 2 o nome do gravador foi digitalmente apagado, mas pode ser bem percebido na fig. 2A.
Fig. 2A – Um franco belga. O nome do gravador pode ser visto logo acima do pé da Bélgica, do lado esquerdo (clique para ampliar)
Fig. 5 – Cinco francos (acervo do autor)
A moeda de 5 francos também tem detalhes interessantes. Também segue o padrão de bilinguismo, mas uma língua em cada moeda. No reverso, alguns exemplares, Belgique; em outros, België. No centro, um ramo de carvalho simétrico geometricamente estilizado; é possível ver os veios da folhas e, junto com o primeiro par de folhas, as duas características bolotas da planta. À esquerda do ramo, “5”; à direita, “FR”, de franco, compondo o valor facial. Encimando o ramo de carvalho, uma coroa real com fitas esvoaçantes. Trata-se de uma representação heráldica alegórica, uma vez que a monarquia belga não tem uma coroa física, como a inglesa.
No anverso, a representação de Ceres, considerada por romanos e gregos (sob o nome de Deméter) a entidade tutelar da Agricultura. Do lado esquerdo, a data; do direito, uma cornucópia, símbolo romano que representa a Agricultura e o Comércio; trata-se de um chifre de cabra cheio de gêneros agrícolas: trigo, frutas, legumes. Tem relação ao mito da cabra Almateia, que alimentou Júpiter (Zeus) em sua primeira infância. É um símbolo de abundância, que faz eco com a efígie de Ceres. Abaixo do busto, o nome do gravador: Rau, Marcel Rau.
Espero dar continuidade a este tipo de artigo entre as críticas políticas. É bom para desopilar o fígado.
Artigo: Sérgio F.  Mendes