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O DINHEIRO QUE VEIO DO MAR


Por: Paulo Giannocco


O tema deste artigo cita datas e números obtidos das pesquisas dos autores em documento confiáveis.  O primeiro registro chinês diz da primeira referência de uso da concha como dinheiro entre os períodos de 2000 a 1500 a.C. Apesar do tempo remoto, não foram os chineses que “inventaram” a concha como moeda; eles apenas aceitaram-nas a fim de participar de uma proveitosa troca de mercadorias com diversas sociedades além fronteiras. Até o final do século XV, os europeus só conheciam a Ásia via mar Mediterrâneo, mar Vermelho até a Índia e norte da África. A Oceania e resto da África; com exceção dos portugueses que se dirigiam as Índias contornando a África. É exatamente nestas regiões que a concha primeiramente se desenvolveu como moeda, e que os europeus tomaram conhecimento deste mercado baseado em conchas, já então expandido e dele se aproveitaram.

Foto da capaA questão é: porque povos e comunidades distintas aceitaram conchas como valor de troca de bens?  Porque a credibilidade? A resposta está na ancestralidade comum de todos; ou seja, na base, no grupo ou grupos dos quais todos eram (e somos) descendentes, herdando inclusive seus costumes. A concha representava o mais importante mistério, o nascimento, a vida que se reproduzia dos homens, animais e vegetais; estes dois últimos como sustento alimentar para sua longevidade. O nascimento numericamente maior que a morte era à base do crescimento e preservação da tribo, tornando-a mais forte. Portanto a concha era um importante amuleto sendo carregada por muitos em forma de colar ou pulseira.
Os reflexos da crença podem ser vistos nos rituais em muitas sociedades e antigas civilizações. Um exemplo; a pia batismal da igreja de Santiago de Compostela e de muitas igrejas era uma válvula da Tridacna gigas que simbolicamente representava a conversão de um herege do mito da concha para a religião da criação cristã do homem. Talvez algum dia se possa contar melhor esta história, mas não há dúvida que a concha sempre esteve e ainda está presente junto ao homem, participando dos seus ritos, valores e crenças. O estreito vínculo desde o primórdio do homem terá sido a resposta pela aceitação das conchas como moeda.

CONDIÇÃO BÁSICA

 Para que algo perdure como moeda é necessário que seja disponível na quantidade, no tempo exigido pelo mercado e acessibilidade. Vários gêneros e espécies de conchas tiveram tal atributo conforme sua ocorrência geográfica; porém a de maior importância foi o cauri (cypraea moneta), que respondeu às necessidades dos europeus por 500 anos. Esta concha tem tamanho médio de 2 cm, é arredondada e achatada com uma abertura ventral.  Outras conchas, cypraea anullus circulou em paralelo com a moneta; as marginellas na África subsaariana; as olivancillarias africanas em Angola e Brasil (Pernambuco e Bahia); a mercenária entre as nações indígenas norte americanas, chamada de wampum.
Vulgarmente chamada de cauri , nome de origem hindu do sânscrito e adaptado pelos portugueses.  Também foi foneticamente adaptado para o inglês “cowrie”. Na África é chamado de búzio. As olivancillarias africanas e as brasileiras de zimbo.

                ILHAS MALDIVAS - A MAIOR FONTE

                As Maldivas são um arquipélago formado por 1.196 ilhas coralinas no Oceano Índico a sudeste do Sri Lanka; seu povo é muçulmano, religião islâmica. O sultanato foi dominado pelos portugueses, holandeses e ingleses até 1965. Três anos mais tarde tornou-se república. Em todo arquipélago se reproduz o cauri em abundância, sem predador natural. Na ilha Laquedivas, pertencente a Índia também há cauris.

                CHINA - OS PRIMEIROS REGISTROS

Os primeiros indícios e registros do uso do cauri como moeda estão na China;
Dinastia Xia (2000 – 1500 a.C.), conchas naturais vindas dos mares do sul;
Dinastia Shang (1700 -  1027 a.C.), manufaturadas em argila, osso de boi e jade;
Dinastia Zhou (1027 – 221 a.C.), em jaspe; fundidas em cobre, bronze, chumbo, prata e bronze banhada a ouro;
Dinastia Qin (221 – 207 a. C), fundidas em ferro.
                Estes são seus períodos iniciais, algumas conchas manufaturadas não circularam em algumas dinastias seqüentes, mas voltaram em outras. Os cauris de cobre e bronze foram fundidos quase o dobro do tamanho natural. Na dinastia Tang (618 – 907 d. C.) iniciou-se o processo de fundição por moldagem em areia e a cera perdida. Os cauris de ouro circularam por cinco dinastias.
Estas moedas serviram como fator agregador no pós- guerras civis que formou o país.

                OS EUROPEUS

                Quando os portugueses tomaram as Maldivas tornando seu território em 1558, este país já abastecia com cauris o mercado africano e asiático com os atributos que uma moeda  moderna  deve ter, servindo como meio de troca de mercadorias, reserva de valor e meio de pagamento de bens e serviços. O arroz era o principal produto comercializado.
                Os portugueses impuseram ao sultão um pesado resgate anual em conchas, participando assim deste mercado e conquistando o domínio econômico em várias cidades da Índia. O monopólio português se manteve até a primeira metade do século XVII.
Em 1645 os holandeses firmam acordo no Ceilão, anulando o resgate português imposto à ilha. Uma companhia particular holandesa V.O.C. – Vereenigde Oost-Indische Companie; (Companhia Unida do Leste Indiano); entra preferencialmente no comércio de cauris.
Em seguida chega outra companhia particular, a E.I.C. – East Indian Company; (Companhia das Índias Orientais) e juntas tomam dos portugueses o comércio de escravos via Benim e seu domínio em várias cidades indianas, restando aos portugueses apenas Goa.
Apesar do monopólio holandês, eram os ingleses que mais compravam conchas nas Maldivas. Os franceses, alemães e dinamarqueses vieram em seguida participar deste mercado.

A CONVIVÊNCIA COM OUTRAS MOEDAS

Com o dinheiro europeu o sultão das Maldivas organizou um extraordinário aparato militar com soldados e mercenários treinados na Europa. O “grande cofre” Maldivas torna-se assim protegido.
Para compreender a convivência desta moeda com as demais européias, era necessária uma equivalência quantitativa em todo o espectro de negócios, do mais caro ao mais barato satisfazendo ambas as partes. Podemos fazer um paralelo das conchas com as moedas metálicas européias com o advento da revolução industrial na Inglaterra, no século XVIII.
O novo sistema de trabalho trouxe o homem para a cidade, deixando o trabalho artesanal para operar a máquina de um proprietário, o capitalista. Fayol, criador da administração industrial, propôs que o salário dos operários pudesse comprar os produtos então industrializados de modo a girar o dinheiro e assim todos crescerem.  A base operária estava num nível econômico muito baixo; recém saídos do campo e carentes das necessidades básicas. Houve de imediato uma forte demanda de produtos baratos e de consumíveis rápidos. A moeda de menor valor na Inglaterra era o centavo (farthing), que valia 1/4 do penny; em quantidade insuficiente para suprir a nova demanda e de valor elevado ante alguns novos bens do mercado. Por sua vez, os metais eram muito requisitados para fabricação de máquinas, tornando as moedas mais caras. O custo de fabricação do centavo ficou maior que o seu valor de face. Como comparação, em 1850 na Nigéria, o centavo era trocado por 30 cauris.
Os acordos entre comerciantes davam enorme vantagem aos europeus; compravam conchas com seu dinheiro, com elas produtos a serem vendidos na Europa com margens de lucro de 100 a 500 %, às vezes mais. Se por um lado 1 centavo inglês valia 30 cauris, por outro 1 ducat com  3,25 g de ouro,  era trocado por 400.000 cauris. Pela diferença numérica parece desfavorável para quem dispunha das conchas; mas não, devido ao seu baixo custo de produção. Para as Maldivas a matéria prima do seu dinheiro era gratuita e a pesca do cauri era feita por mulheres e crianças. O método consistia em boiar pequenas jangadas de madeira com ramos de palmeiras presos entre as tábuas e com as folhas encostadas no fundo. Após um ou dois dias as folhas estavam repletas de moluscos. As jangadas eram então retiradas e as folhas sacudidas na praia, deixando as conchas para secar. A produção era de 5 mil conchas por mulher por dia, portanto para coletar 400.000, por exemplo; 4 mulheres deveriam trabalhar por 20 dias; e isto valia 1 ducat de ouro.  Não nos parece que na Europa em qualquer trabalho agrário com 4 colonos e por 20 dias, o senhorio pagasse  tal quantia. A quantidade de cauris negociada pelo sultão era bem controlada, em função do volume posto em circulação, sem não depreciá-los.
Para qualquer outro país não europeu integrado no modelo de cauris, não havia interesse em reter moedas metálicas, muito menos de ouro, por equivaler a grandes quantidades de conchas.  Importante era manter reservas de moedas de baixo valor, mais fáceis de gerenciar entradas e saídas na quantidade que permitisse um controle apurado da economia. Em Bengala havia ouro e prata, mas o rei e nobres protegiam suas reservas de conchas como se fossem verdadeiros tesouros.
                Num outro extremo, um cauri valia uma cuia de água potável; cinco cauris uma batata doce cozida; ou seja, todo o espectro do comércio de bens estava coberto e se podia estabelecer paridade ou acordo com qualquer outra moeda.  
Este cenário criava segurança e equilíbrio de todos os mercados quanto aos metais constituintes das moedas européias. Por algum momento os portugueses destinaram grande parte dos cauris de resgate à compra de ouro, permitindo uma preocupante desvalorização deste metal. Mas para se estabelecer como moeda, outras exigências deveriam ser satisfeitas.
O cauri tem o tamanho compatível de uma moeda, é leve, possui dureza e durabilidade suficiente para se manter intacta no manuseio, atrito ou queda ao chão. Tinha uma propriedade fundamental como moeda nacional ou internacional: a credibilidade; talvez o maior atributo desde o seu nascimento e de sua longevidade.
A região das Maldivas não está muito distante das cidades e países onde nasceram e se desenvolveram nossas maiores religiões, impondo costumes, ritos e valores bem distintos. Reis e mandatários tinham relações divinas, suas moedas eram impressas com palavras e ícones religiosos.  Nestas circunstâncias não eram aceitas como meio de troca em todos os lugares às vezes eram trocadas apenas pelo peso de seu metal.
O cauri era uma moeda correta, sem qualquer conotação religiosa ou política, sendo aceito em todo o lugar. Dois comerciantes de credos bem distintos sempre chegavam a um acordo, mesmo quando um produto fosse comercializado pela primeira vez.  

OS NEGÓCIOS

Um aparente problema era a grande quantidade dos cauris nas negociações.  Um mesmo produto podia variar de preço segundo o destino. O transporte pelo Saara, por exemplo, onerava muito a mercadoria. Para facilitar a contagem estabeleceram pacotes com múltiplos de cauris. Assim,
1 cabra equivalia a 6370 cauris;
1 galinha (não é a ave) a 20 cauris;
1 réstia era 40 cauris;
1 cacho igual a 5 réstias;
1 kotta valia 12.000 cauris, que valia também 1 libra esterlina ou 1 larin de prata, este criado pelo sultão por imposição dos ingleses.
Os cauris podiam ser furados, presos a cordas e negociadas pelo seu comprimento. Grandes quantidades reconhecíveis pelos invólucros trocavam de mãos várias vezes sem serem abertos.
O comércio entre africanos, asiáticos com os europeus tinha característica própria. Os comerciantes europeus trocavam seu dinheiro por conchas nas Maldivas com as quais compravam o produto a ser vendido na Europa. Ingleses e holandeses, com os maiores volumes negociados, tinham de carregar completamente seus barcos com conchas e depois partir para as compras. Perceberam ser mais econômico e mais rápido partirem de seus portos de origem já com as conchas; isto era viável porque em determinada época do ano não se podia chegar a alguns portos devido ao mar revolto e ventos fortes; resolveram comprar cauris e transportá-los para suas sedes. Partiam então de seus portos carregados de cauris em substituição a areia, pedras e ferro velho, que até então serviam de lastro.
                Holandeses e ingleses se aproveitaram dos estoques em seus portos para realizarem leilões em Armsterdam e Londres; onde participavam todas as companhias dos demais países. Os ingleses vendiam as conchas como as adquiriam e os holandeses as compravam nas praias das Maldivas; ou seja, ainda não circuladas. Eram enterradas por um período que o animal era totalmente consumido; limpas e lavadas. De alta qualidade e sem adicional de peso pela retenção do animal morto; eram chamadas de “maldivas vivas”, e tinham um valor maior que as conchas inglesas, chamadas de “maldivas mortas”. Os preços nos leilões eram elevados e os portugueses com o real desvalorizado e impedidos de negociarem diretamente nas Maldivas, mudam seu foco mais ao sul da África, que conheciam muito bem.
O alemão Hertz da companhia Altona de Hamburgo teve dificuldade de entrar no jogo e escapar dos leilões; porém num lance bem engendrado, Hertz se coloca diretamente no mercado. Com o advento da era industrial, fortaleceu-se muito o mercado africano; o óleo de palma é um bio combustível que antes era importado pelos europeus apenas para acender lamparinas, passa a ser utilizado como lubrificante das máquinas, na indústria têxtil, na composição de material de limpeza e de sabonetes, aumentando muito seu consumo; 22.000 ton em 1850. Outros produtos também têm aumento de consumo, couro de boi, cordas, algodão, inhame, índigo etc. O comércio com a África é intensificado e diminuído com a Índia e duas de suas mais importantes cidades têm seus estoques de conchas diminuídos, Orissa e Bengala.
                Hertz se aproveita da situação, calcula a possibilidade de bom lucro trazendo uma concha de Zanzibar na África, mesmo descontando os custos da pesca, distância, o maior peso em relação ao cauri e ainda a deprecia em valor em relação ao cauri para que tivesse aceitação. Deu certo; e, em 1844 esta concha do mesmo gênero que o cauri entrou no mercado, a cypraea anullus, convivendo com o cauri sem a ele se misturar pela diferença de valor.
Em 1855 e 57, a alemã Altona e duas empresas francesas comercializam 45 ton de cypraea anullus. Em 1880 a última grande compra de uma única vez; a companhia francesa G.W. Neville adquiriu 300 ton de c. anullus.  A dinamarquesa Ostend Company, também participou deste mercado.

                QUANTIDADES NEGOCIADAS  EM  CAURIS

                Os registros de bordo permitiram que se levantassem as quantidades negociadas com cauris.
Durante todo o século XVIII, ingleses e holandeses comercializaram uma média anual de 112,5 ton. Nesta conta inclui-se a compra de 880.000 escravos saídos por Benim.
                O auge do cauri é a primeira metade do século XIX; somente os ingleses movimentaram uma média anual de 123 ton. De 1841 à 1850, a média anual entre todos os europeus foi de 400 ton, sendo 4 anos  com 470 ton. Neste período holandeses e ingleses tiveram pico num único ano de 327 ton.

PORTUGUESES E O BRASIL

 Os portugueses conhecedores de toda a costa africana aproveitam para explorá-la. O deserto do Saara encarecia muito o transporte para o interior e os portugueses poderiam adentrar a África pelos rios que bem conheciam e elege Angola como base de exportação de escravos para o Brasil por estar a 35 dias de viagem de Pernambuco, o menor tempo de viagem.
Luanda era um mercado próspero e o seu dinheiro uma pequena concha, o zimbo  (olivancillaria nana). No Brasil há este gênero de molusco, porém duas ou três espécies eram encontradas em toda a costa (não ocorre a o. nana).  Os portugueses apresentam uma delas ao chefe iorubá que a admira e permite sua introdução no mercado local. Com dificuldade financeira, os portugueses também permitem seu uso no Brasil, inclusive negociar escravos entre os senhorios fazendeiros. A invasão descontrolada do “zimbo” brasileiro quebra o mercado de Luanda; o rei proíbe o uso destas conchas e impõe o cauri. Os portugueses trazem cauris dos Açores e mantêm o tráfico de escravos para o Brasil. Mesmo levadas de mais longe que o Brasil, há dúvida se os portugueses não tenham planejado ou não tal situação, pois o controle econômico de Angola ficou totalmente nas mãos dos portugueses via cauri.
 Não há informação de qual molusco brasileiro foi utilizado como dinheiro, presume-se que tenha sido a olivancillaria steeriae.
Calcula-se em 100 milhões o número total de escravos desde o primeiro até o último homem que deixou a África para o resto do mundo, uma grande parte comprada com cauris. No início o preço de cada escravo era de 3600 cauris e 100 anos depois de 20 mil cauris, chegando a 80 mil após proibição inglesa. Assim mesmo eram considerados muito baratos sendo comprados até por pequenos comerciantes no Brasil. Entre 1600 e 1850 vieram para o Brasil 4 milhões de escravos, a maioria de Angola.

VALORIZAÇÃO E INFLAÇÃO  

Por algumas vezes ao longo do tempo ocorreram oscilações no valor das conchas, mas normalizadas pela sua própria atividade. Uma grande valorização acontece nos séculos XVI e XVII pela grande quantidade de prata levada pelos espanhóis do novo mundo para Europa; a desvalorização das moedas deste metal faz o cauri setuplicar seu valor.
A introdução de outras conchas gerou inflação, como as marginellas trazidas das Ilhas Mauritius; mas, foi absorvida pela expansão do mercado.  Porém uma série de eventos inflacionará as conchas como moeda no mercado internacional.
A introdução da c. anullus pelo alemão Hertz, por exemplo, faz escapar das mãos originais o controle quase que total do mercado pelas Maldivas. O aumento de países participantes, suas distâncias, seus problemas, inviabiliza qualquer centralização de controle, os preços das mercadorias variam muito de acordo com o lugar e também chegam cauris de outros centros como Filipinas e Singapura.
 A pressão dos ingleses contra a migração de mão de obra barata da África para a agricultura no novo mundo, deslocando da Índia e África as culturas de seu domínio de cana de açúcar, café, fumo e algodão que também retira a concha da intermediação comercial. Pela lei Bill Aberdeen, de 1845, os ingleses se permitem a abordar e confiscar qualquer barco com escravos (com exceção dos norte americano). Apesar da lei, de imediato diminuir o volume de compra, ela gera o resultado inverso do esperado pelos ingleses. Os traficantes portugueses instalados no Brasil e em Nova Iorque se unem aos confederados americanos, que sofriam a pressão dos nortistas para o fim da escravidão. Navios negreiros de bandeira norte americana eram arrendados pelos portugueses para trazer escravos para o Brasil sem a abordagem inglesa. Devido a perseguição, o preço de um escravo, que também era trazido cada vez de mais longe, chegou a 80.000 cauris, quantidade inviável como transporte de pagamento, pois um navio negreiro podia comportar 700 escravos por viagem. Assim o dólar americano substituiu o cauri como moeda neste comércio; exatamente o oposto da vontade inglesa que vê sua moeda diminuir seu poder de influência. O algodão norte americano chega a Europa mais barato que o africano trazido pelos ingleses. As conchas perdem posição também frente ao dólar.
O avanço tecnológico a partir da revolução industrial trouxe novos fatores desfavoráveis à permanência do cauri nas relações comerciais no médio prazo. Com o barateamento no processo de fundição de metais menos nobres, ingleses e franceses fabricam moedas metálicas de baixo valor agregado, competindo com o cauri.
Um diretor da companhia E.I.C. investiu seu patrimônio em cobre, com alto estoque, mas sem mercado, ficou em situação falimentar. Um amigo seu, alto funcionário do governo resolve ajudá-lo e propõe a fabricação de uma moeda de cobre na Índia; o governo inglês compra o cobre abaixo do valor de mercado e produz o pice indiano. Oportunamente, os estoques de cauris em Orissa e Bengala estão muito baixos e o sultão das Maldivas compra muito arroz destas cidades com cauris para enfrentar o pice, mas a nova moeda se consolida.
A partir de 1901 os ingleses proíbem diversas colônias do uso de concha. Em 1906 a Nigéria, é proibida de importar c. anullus e criam a moeda anini de 1/10 do valor do penny, em substituição ao cauri.
Franceses usam o alumínio fundido como lastro de moedas em suas colônias introduzindo o franco em substituição ao cauri, fortemente taxado.
Implantação de bancos ingleses nas suas colônias, operando apenas com moedas metálicas; reservas em cauris eram proibidas, ficando fora dos serviços bancários oferecidos.
 Ingleses e franceses destroem estoques de cauris em algumas de suas colônias, proíbem pagamento de impostos de suas colônias com cauris. Em 1912 os alemães proíbem a circulação do cauri em Camarões.

O FIM

O fim era inevitável, o contexto sócio econômico, desenvolvimento das nações e modernidade colocaria um fim natural com ou sem pressão de interesses particulares. A primeira grande guerra, 1914 – 17 deram um fôlego temporário ao cauri, quando os países envolvidos mudaram seu foco para o litígio; a quebra da bolsa norte americana em 1929 também, enquanto os países não reorganizassem suas economias. Porém com a segunda grande guerra, 1939 – 45, os países mais interessados no antigo sistema fizeram parte do cenário da guerra; os adeptos do cauri têm novas orientações políticas afetando suas relações.
Lutas internas pelo poder nas Maldivas entre muçulmanos e curdos põem fim a saga das conchas como moeda. Em 1968 tornam-se república após o sultanato sob influência inglesa. Atualmente sua receita vem do turismo (63%), da pesca e comercialização do atum. Os caurís ainda são exportados; como suplemento medicinal híndi ayurvedic, matéria prima para cerâmica e para adorno pessoal.

COMENTÁRIO FINAL

                O zoólogo sueco Karl Von Lineé desenvolveu um sistema de nomeação científica para os moluscos, “latinizando” o nome do gênero e espécie do animal. Em 1758, o mesmo Lineé batizou o cauri de Cypraea moneta, ou seja, dinheiro em latim. O gênero do molusco cypraea é derivado da palavra Chipre. Nesta ilha havia uma estátua de Afrodite, deusa da fertilidade grega e onde era cultuada; na época circulou nesta ilha um cauri de ouro maciço como moeda.
Nomes das conchas citadas e identificadas:
cypraea moneta  - é o cauri, não ocorre no Brasil
cypraea anullus  – tem este nome devido a um anel dourado no dorso,
mercenária mercenária  – o wampum dos índios norte americanos,
olivancillaria nana  – o pequeno zimbo angolano, na língua ioruba significa “criança de Deus”,
olivancillaria steeriae – o provável zimbo brasileiro,
marginella amygdala  – circulou no Saara e região sub saariana,
 Gâmbia, Guiné-Bissau, Serra Leoa e Libéria, únicos países africanos que não utilizaram cauri.
 Os Incas usaram conchas juntamente com grãos de cacau como moeda interna.
 Foram encontrados cauris de bronze em túmulos etruscos.
O explorador francês Lafayette quando chegou a América do Norte negociou a compra de peles de búfalo; em troca os índios Creek pediram conchas. Outras cinco nações indígenas que usaram o wampum: Pawnee, Cheyenne, Dakota, Cherokee e Apache. Estas conchas variam muito de cor e determinado posicionamento de suas lascas coloridas era o registro de contagem numérica de índios e búfalos.
 Comunidades pequenas com monocultura trocavam seu produto por conchas iguais as que haviam em suas praias. O discernimento de avaliar a quantidade recebida e o que pudesse com elas obter não caracterizava uma situação de risco.
 Conchas foram encontradas em cavernas habitadas por hominídeos na França e no Chile; a sua relação com diversas entidades e deuses em todos os continentes em tempos remotos até atuais pode justificar a credibilidade que a concha sustentou como moeda por todo esse tempo.


                AS CONCHAS COMO TEMA EM MOEDAS E PAPEL MOEDA

Após 1950 muitos territórios e ilhas dominadas por europeus receberam autonomia, tornando-se países. Esta independência foi outorgada, sem lutas, movimentos libertários nem a figura de um rei ou líder, heróis ou mártires. A inexistência de tais personagens direcionou a temática das novas moedas e papel moeda para as características naturais de cada região. Assim procederam países da África, Oceania principalmente e outros da América Central. Os principais gravadores e impressores de moedas foram contratados, inclusive em alguns casos a desenvolverem o brasão do novo pais. Com liberdade criaram lindas moedas, algumas parecendo mais com medalhas comemorativas.
Mais de 60 países já imprimiram conchas, cinco delas aparecem nos brasões e se somarmos com as impressões em papel moeda há ao menos 150 impressões diferentes. Em média é lançada uma moeda com concha por ano.
Todas as conchas destes países estão identificadas, cada espécie no seu próprio habitat, e o desenho correto da concha correspondente, porém o desenho da concha nas moedas brasileiras (cruzeiro de 1970 a 90; 2ª família 1979 a 86; e, 50 cruzeiros de 1990 a 92, junto com baiana do acarajé); é sempre o mesmo desenho do cauri; que não circulou no Brasil.
No Brasil circulou o zimbo e, como dissemos provavelmente o zimbo brasileiro seja a olivancillaria steeriae; caso o leitor consiga alguma amostra de alguém que a tenha guardado de lembrança, será facilmente identificada pelo Conquiliologistas do Brasil; assim terá contribuído com pequeno, mas  interessante fato da nossa história.


Denominação das conchas
Moedas               Cook Is.  5 $ – facetada – charonia tritonis
                                Rep Maldivas  2R -                   “           “
                                Bahamas  1$ - strombus gigas
                                Fiji  20$ - cypraea  aurantium
                                Guiné  50c  cypraea  moneta (cauri)
                                G. Equatorial  ?$ -  “      “
                                Tuvalu  1c  -  lambis scorpius
                                England  20p  - haliotis (abalone)
Cédulas                                Butão  10Ng  - turbinella pyrum
                                Aruba  10 Fl  -  melongena  melongena
                                Bermuda   5$  -  strombus gigas
                                Maldivas  5Rp  -  cypraea moneta
                                Angola  500.... -  olivancillaria nana
                                Cook Is.  20$  - charonia tritonis
                                Cook Us.  3$  - tectus niloticus
                                Suissa  20Fr  -  amonite ( fóssil )
Chinesas              osso de boi (peq. Escura), jade ( cor não homogênea) – ( Shang)
                                Jaspe ( branca ),  chumbo  – ( Zhou )
                                Bronze ( metálica grande ) – ( após din. Tang )

BIBLIOGRAFIA

Glyn & Roy Davies,1966/2002 – “Monetary History from Ancient Times to the Present Day

Wang Yu Chuan – “Early Chinese Coinage” - internet

J Hagendorn & M Johnson – “ The Shell Money of the Slave Trade”- Cambridge University Press

A F Iroko – Prof Univ. de Benin – “As Valiosas Conchas da África” – O Correio da Unesco- 03/1990

Gerald Horne – “O Sul Mais Distante”- Cia. Das Letras – copy 2007, N York University Press

SECRE/CAP – Banco Central do Brasil